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AGRO E INDUSTRIA

Fruticultura Brasileira: Diversidade e sustentabilidade para alimentar o Brasil e o Mundo

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*Letícia Assis Barony V. Fonseca – Assessora técnica de frutas, hortaliças e flores na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

A fruticultura brasileira, além valorizar a riqueza vegetal e cultural do país, apoia-se nos três pilares da sustentabilidade (econômico, social e ambiental), preservando a biodiversidade, gerando empregos e promovendo o desenvolvimento regional.

São as boas condições climáticas e de solo permitem que tenhamos uma grande diversidade de frutas o ano inteiro, adaptadas aos mais diversos biomas. Laranja, banana, melão e manga são frutas conhecidas em todo o mundo, e todas remetem ao Brasil. Mas aqui temos também jabuticaba, açaí, graviola e outras inúmeras frutas, com variadas cores e sabores. Todas têm algo em comum, fazem parte da diversidade e cultura nacional.

A produção brasileira de frutas ultrapassa as 41 milhões de toneladas, ocupando em média 2,6 milhões de hectares – ou seja, apenas 0,3% do território nacional é ocupado pela fruticultura, diante dos 7,8% ocupados por lavouras. São mais de 940 mil estabelecimentos agropecuários distribuídos em todas as regiões do país, dos quais, 81% se enquadram como agricultura familiar. Em 2021, a atividade frutícola empregou 193,9 mil trabalhadores formais, um aumento de 9% em relação ao ano de 2020. O número de trabalhadores na fruticultura em 2021 corresponde a 11,5% do total de postos de trabalho na agropecuária.

A excelência e diversidade da produção de frutas brasileiras têm conduzido o setor a uma escalada de crescimento no mercado internacional, mas ainda em fase inicial. O país tem potencial para ampliar a produção, o período de oferta e a participação no cenário global. A cesta de exportações é composta por mais de 40 frutas, alcançando o recorde de vendas de US$ 1,07 bilhão em 2021. Atualmente, apenas sete variedades de frutas (manga, melão, uva, limão, maçã, melancia e mamão) correspondem a mais de 80% do faturamento do setor no mercado internacional. A União Europeia é o principal destino de exportações, responsável por 52,6% dos proventos em 2021. Em seguida estão Reino Unido e Estados Unidos, com participação de 15,7% e 12,8%, respectivamente.

A expansão da fruticultura brasileira tem sido fundamentada no desenvolvimento técnico e científico, que, associado à diversidade de regiões com aptidão agrícola, permite o uso consciente da terra, sem que seja necessária a exploração de novas áreas. O histórico de produção das principais frutas evidencia incremento considerável na produtividade: no período de 2010 a 2020, a produção de mangas cresceu 32%, enquanto a área cultivada reduziu-se em 6%, o que representa alta de 40,3% na produtividade. Padrão semelhante verificou-se com limões e limas, cuja produtividade apresentou incremento de 17,4% no período.

A FRUTICULTURA BRASILEIRA EM CONTEXTO

A região Sudeste é líder na produção de frutas, respondendo por 51% da produção nacional. O Sudeste possui microrregiões com clima e relevo variados, o que permite o cultivo de frutas temperadas e tropicais. A importância da fruticultura para a região é vista no volume e na diversidade da produção. Composta pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a região apresenta também a maior concentração populacional, cerca de 42%, da população do país.

O Vale do Ribeira, localizado no sul do estado de São Paulo, é nacionalmente conhecido pela produção de banana, como também pela preservação da diversidade ecológica e da tradição indígena e quilombola. No norte de Minas Gerais, o destaque é o Projeto Jaíba, um polo de produção irrigada de banana, lima ácida tahiti, manga e mamão. Fundada por meio de uma iniciativa regional, a Marca Coletiva Região do Jaíba possui a rastreabilidade, saudabilidade e consciência como pilares de atuação. A Marca abriu portas e trouxe reconhecimento aos produtos da região no mercado internacional.

Ainda nessa região, encontram-se o Cinturão Citrícola de São Paulo e Sudoeste/Triângulo de Minas Gerais, que colocam o Brasil na posição de maior produtor e exportador de suco de laranja, com 61% e 72% da participação mundial, respectivamente.

Outros cultivos e métodos de agregação de valor têm ganhado espaço. A produção de abacate no Triângulo Mineiro apresentou incremento de 79% nos últimos cinco anos. Uma das estratégias adotadas é a redestinação de frutos. Produtos que não se enquadram nas demandas do mercado in natura vêm sendo utilizadas na produção de azeite como forma de melhor aproveitamento da produção, diversificação da renda e ampliação da oferta de empregos na região.

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A segunda principal região produtora é o Nordeste, que responde por 24% da produção nacional de frutas. Composta pelos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Piauí, está localizada em zona intertropical, onde a predominância do clima árido, à primeira vista, não apresenta condições favoráveis para a produção de frutas. No entanto, a busca por alternativas e o desenvolvimento de estratégias condizentes com a realidade regional tornaram cidades nordestinas líderes em inovação tecnológica na fruticultura.

A região de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) no Vale do São Francisco tornou-se um grande polo de irrigação. A cultura da uva é um exemplo de sucesso e inovação tecnológica. Anteriormente, a fruta tinha produção e oferta sazonal no Brasil, com maior concentração no segundo semestre, originada na região Sul do país. O desenvolvimento de cultivares adaptados ao clima tropical, bem como de práticas de quebra de dormência – superação do período de dormência, um estado de paralização temporário no crescimento das plantas ou partes das plantas, na fruticultura ocorre por exemplo previamente à floração e frutificação -, permitiram a evolução da cultura na região. Hoje, o Vale do São Francisco é responsável por 62% da produção nacional de uva de mesa (207,7 mil toneladas). Outro destaque para a região é a manga, cuja cultura no Vale responde por 61% da produção nacional (963 mil toneladas, produzidas em 29,6 mil hectares).

Mossoró, localizada na Chapada do Apodi, Rio Grande do Norte (RN), também é um polo de fruticultura irrigada. A cidade, que fica a menos de 50 km do litoral do RN, possui majoritariamente solo arenoso e a principal fonte de água para irrigação é subterrânea. A água é salina, e seu uso na irrigação fica condicionado ao controle de salinidade e condutividade elétrica. O desenvolvimento de estudos sobre o manejo da irrigação e adaptação de culturas às condições da região permitiram o avanço da produção. A microrregião origina quase metade do melão produzido no país, e 12% da melancia. O volume lá produzido tem a exportação como principal meio de escoamento.

Representando a fruticultura temperada, os estados da região Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – são responsáveis por aproximadamente 12% da produção nacional de frutas. O inverno mais acentuado faz com que grande parte desta produção seja de frutas de clima temperado, como maçã, uva, pêssego e ameixa. A região é responsável por 96% da produção de uva industrial, destinada principalmente à produção de bebidas como sucos, vinhos e espumantes. Uma característica muito comum da agricultura do Sul, e que se destaca frente a outras regiões, é a estrutura das propriedades, com prevalência do associativismo e do cooperativismo.

As regiões Norte (Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá, Pará e Tocantins) e Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal) somadas representam 52% do território nacional (mais de 440 milhões de hectares). Porém, correspondem a uma pequena parcela da produção de frutas, de 13%, produzidas em uma área de 616 mil hectares, apenas 0,14% da extensão territorial das regiões. Compostas pelos Biomas Amazônico, Cerrado, Pantanal e, em menor proporção, Mata Atlântica, a grande biodiversidade presente nestas regiões gera riquezas também para a fruticultura.

São originárias das regiões Norte e Centro-Oeste frutas como o guaraná, cupuaçu, açaí, cacau, castanha do Brasil, dentre outras ainda pouco conhecidas fora do país. Um exemplo da agricultura na região é o cultivo de castanha-do-Brasil – fruto típico da região amazônica, que vem sendo reconhecido pelo alto teor nutricional. A árvore é comum no norte do país, e hoje, além de gerar alimento, também é utilizada para recuperação e reflorestamento de áreas alteradas no bioma amazônico. O açaí também é fruto característico da região: são 1,5 milhão de toneladas produzidas anualmente, das quais 94% originárias do Pará. Tanto o açaí quanto o palmito do açaizeiro fazem parte da cultura regional, dos pratos típicos que compõem a dieta e também da renda da população paraense.

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Um aspecto peculiar da região Norte é a prática extrativista, um instrumento de valorização e desenvolvimento socioeconômico. Por meio dele, povos indígenas e ribeirinhos auferem renda, enquanto auxiliam na conservação da floresta nativa. O açaí, em particular, destaca-se como exemplo de produção sustentável na fruticultura regional. O fruto é utilizado na indústria alimentícia e mais recentemente também na indústria de papel e moveleira, a partir da fibra contida em seu interior. Além disso, o açaizeiro é uma palmeira de estipes múltiplas, o que permite o aproveitamento do palmito de açaí, sem que o corte ocasione a morte da planta.

APOIO AO DESENVOLVIMENTO DA FRUTICULTURA SUSTENTÁVEL

Em todos os casos aqui apresentados, transparece o empenho de instituições de pesquisa, da assistência técnica e do produtor rural. Há diversos atores envolvidos, públicos e privados, em diferentes níveis. O governo brasileiro desenvolve programas para a aplicação das boas práticas agrícolas e o aumento na eficiência da produção. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) promove a inovação tecnológica na cadeia por meio de suas unidades especializadas em fruticultura na Bahia, em Petrolina e no Rio Grande do Sul. O Sistema CNA/Senar atua junto ao produtor rural para promover a capacitação e o desenvolvimento tecnológico do setor. Ações como o Projeto Biomas e o Programa Pravaler visam a auxiliar os produtores na gestão e aproveitamento dos recursos da propriedade rural e a prestar apoio aos órgãos ambientais estaduais na implementação das ações e iniciativas do Programa de Regularização Ambiental (PRA).

O Sistema possui o Centro de Excelência em Fruticultura, situado em Juazeiro (BA). A instituição atua diretamente na profissionalização do setor, garantindo a formação de mão de obra qualificada e o desenvolvimento de técnicas produtivas inovadoras. Cursos também são ofertados nas demais regiões. Apenas em 2021, as capacitações do Senar contaram com a participação de mais de 5,8 mil fruticultores, além de cursos específicos por cadeias produtivas, sendo 1,7 mil produtores de banana e 1,3 viticultores. Por meio do Senar ATeG (Assistência Técnica e Gerencial) há também o acompanhamento de produtores de frutas, que em seis anos atendeu mais de 13 mil produtores em 25 estados.

A fruticultura brasileira, seja cultivando frutas temperadas ou tropicais, frutas mundialmente conhecidas ou consumidas apenas regionalmente, possui características comuns: valorização da terra, preservação dos recursos naturais e produção de um alimento saudável e saboroso. A produção nacional incorpora cada vez mais tecnologia e inovação, mas traz um legado de gerações, que garante nutrição, geração de renda, preservação cultural e sustentabilidade ambiental. Ainda que tenha como principais consumidores a população brasileira, as frutas do Brasil cada vez mais se fazem presentes em novos mercados, onde vêm sendo crescentemente reconhecidas e demandadas.

Letícia Barony

Engenheira agrônoma, formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e especialista em agronegócio, com MBA em Agronegócios USP/Esalq. Possui experiência profissional no setor de sementes de hortaliças, com enfoque na produção e desenvolvimento de novos materiais adaptados ao clima e mercado consumidor. Atualmente é assessora técnica de frutas, hortaliças e flores no Sistema CNA/Senar, onde trabalha com a representação do produtor rural frente aos setores público e privado. Realiza análises de mercado para a construção de defesas, bem como elaboração de políticas públicas e iniciativas privadas que promovam a produção de agrícola de forma sustentável. As ações são estruturadas em prol do desenvolvimento econômico e social do setor, tendo como premissa fundamental o uso eficiente dos recursos disponíveis e a produção de alimentos.

*Texto originalmente publicado no boletim AgriSustainability Matters, da Embaixada do Brasil em Londres*

Fonte: CNA Brasil

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Colheita avança no Sul enquanto safrinha entra em fase crítica

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A safra brasileira de milho avança em ritmos diferentes conforme a região do país. Enquanto produtores do Sul e parte do Sudeste praticamente encerram a colheita do milho verão, o milho segunda safra — conhecido como safrinha e responsável pela maior parte da produção nacional — atravessa fases decisivas de desenvolvimento no Centro-Oeste e no Paraná, com o clima no centro das atenções do mercado.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita da primeira safra está praticamente concluída no Paraná e se aproxima do fim em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, os trabalhos também avançam rapidamente, enquanto Minas Gerais segue acelerando a retirada do cereal das lavouras. A boa produtividade registrada em parte das áreas do Sul ajuda a reforçar a oferta no mercado interno neste início de segundo semestre.

Ao mesmo tempo, o milho safrinha segue em desenvolvimento nas principais regiões produtoras do país. Em Mato Grosso, maior produtor nacional, grande parte das lavouras já está em enchimento de grãos, reflexo do plantio antecipado após a colheita da soja. Em Goiás e Mato Grosso do Sul, as áreas apresentam desenvolvimento variado conforme a época de plantio e o comportamento das chuvas nos últimos meses.

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No Paraná, segundo maior produtor de milho segunda safra do Brasil, muitas lavouras ainda estão em floração e espigamento, fase considerada uma das mais sensíveis para definição do potencial produtivo.

Técnicos do Departamento de Economia Rural (Deral) e da Conab acompanham com atenção as condições climáticas, especialmente diante da redução das chuvas em algumas regiões e da chegada das primeiras massas de ar frio mais intensas do ano.

A preocupação do setor é que períodos prolongados de estiagem ou ocorrência de geadas fora do padrão possam afetar parte das lavouras justamente durante o desenvolvimento reprodutivo. Por outro lado, áreas plantadas dentro da janela ideal ainda apresentam bom potencial produtivo, principalmente em Mato Grosso.

A Conab projeta uma produção robusta para o milho brasileiro na safra 2025/26, sustentada principalmente pela segunda safra, que responde por cerca de 75% da produção nacional. O desempenho da safrinha será decisivo para o abastecimento interno, formação dos estoques e ritmo das exportações brasileiras no segundo semestre.

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No mercado, cooperativas, tradings e indústrias de ração acompanham de perto a evolução climática nas próximas semanas. O comportamento das lavouras no Centro-Oeste e no Paraná deve influenciar diretamente os preços do cereal, os custos da cadeia de proteína animal e o volume disponível para exportação ao longo de 2026.

Fonte: Pensar Agro

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