Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Ilustres convidados,
Com emoção e carinho, como seu discípulo e afilhado, recordo os 50 anos da partida de um dos maiores filhos do Mato Grosso.
Acostumei-me com sua figura austera, homem de palavra, líder nato, e ainda menino participava de suas campanhas eleitorais do glorioso PSD e me orgulhava da grande amizade que o uniu a meu saudoso pai, Julio Domingos de Campos, o Seo Fiote. Sua presença em nossa casa era habitual e bem-vinda.
Filinto Müller foi a encarnação da honradez na vida pública; do verdadeiro sacerdócio de servir ao povo sem servir-se do poder.
Nunca, jamais, em tempo algum, nossos mais ferrenhos adversários assacaram contra o Senador uma injúria, uma calúnia, uma mentira sequer o relacionando à episódio menor ou ilegal.
O nome do Senador Filinto Müller está escrito nas páginas da história do Mato Grosso com letras de ouro.
Foi um filho que soube servir a seu Estado e seu povo com imensa dedicação e sentido cívico.
Filinto nunca se serviu da política, mas fez da política um forte instrumento de promoção do desenvolvimento social e econômico de nossa terra.
Jovem idealista, insurgiu-se contra os métodos condenáveis das eleições à bico de pena, na mais deslavada fraude onde a vontade popular era simplesmente ignorada.
Nascia, assim, o líder sereno mas duro, o democrata em toda sua essência, o comandante sem medo e sem ódio, que enfrentou as piores práticas da República Velha, e de armas em punho defendeu a democratização do regime.
Destacou-se no movimento revolucionário de 1924, quando servia como tenente em Quitaúna, no Estado de São Paulo.
Insurgiu-se contra o permanente Estado de Sítio vigente durante todo o mandato do presidente Arthur Bernardes. Filinto não comungou no cálice do autoritarismo e da violência da política do café-com-leite, onde Minas Gerais e São Paulo se alternavam no Palácio do Catete, em eleições vergonhosamente fraudadas.
Logo após, já em 1925, lá estava o jovem mato-grossense, ao lado de luminares como Cordeiro de Farias, Juarez Távora, Miguel Costa, Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros, Cordeiro de Farias, Dias Lopes e Djalma Dutra contra o arbítrio e a violência do governo de plantão.
Formado com grande brilho em Direito pela Faculdade Fluminense, primeiro aluno de sua turma na Escola Militar do Realengo, atravessou os sertões do Brasil em marcha batida ou montado em burros, sob sol e chuva, ao lado dos insignes brasileiros que já citei, seguindo a liderança histórica do Comandante Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”.
A coluna prestes foi combatida até por Lampião e seu bando, tendo sido o cangaço armado pelo governo, num escandaloso acerto entre a lei e o crime.
Vencida a Coluna Prestes, pelo território mato-grossense muitos dos revoltosos procuram asilo político na Bolívia, Paraguay e Argentina.
Em Buenos Aires, paradeiro de Filinto, ocorre o que de melhor lhe poderia acontecer: conhece e se apaixona por uma bela argentina, de nome Consuelo.
Mas essa mulher que marcou a vida do líder político, que coadjuvou todos os seus momentos bons e maus, que encantou todos os que a conheceram, nos salões da Capital da República ou nos sertões do Mato Grosso, era mais que uma estrangeira bonita.
Falar em Filinto Müller e não descrever quem foi Consuelo seria grosseria indesculpável. Naquela mulher altiva e meiga, corajosa e emotiva, se encontravam qualidades tais que não exagero se afirmar que Filinto Müller deveu quase tudo à Consuelo, uma mulher maravilhosa!
Não teria sido quatro vezes Senador da República, Presidente do Senado, um dos políticos mais influentes e respeitados de nossa história, se não contasse com a solidez de caráter, o amor incondicional, a palavra certeira de uma mulher culta, cujo desprendimento foi a base da excelente criação de três filhas encantadoras, minhas fraternas amigas Maria Luiza Müller de Almeida, Rita Júlia Lastra Müller e Maria Luísa Beatriz del Rio Lastra.
O amor incondicional de Filinto e Consuelo nasceu em Buenos Aires, floresceu no Brasil e, pelos insondáveis desígnios de Deus, os uniu ainda mais na hora da morte, juntos, nas cercanias do aeroporto de Orly, em terrível acidente aéreo faz exatos 50
anos no dia de hoje. Um seu neto, Pedro, garoto encantador a quem conheci, acompanhou os amados avós no vôo para a eternidade.
A vida e a obra de Filinto Müller estão acima do bem e do mal.
O nome honrado de Filinto Müller não cabe na boca dos levianos e dos maledicentes.
A biografia forjada pelo jovem idealista, pelo homem honesto, pelo chefe político leal, pelo líder corajoso, pertence à história.
Um dos maiores brasileiros de todos os tempos, o Estadista Oswaldo Aranha, que tudo teve e tudo foi, tendo presidido as Nações Unidas em algumas de suas sessões mais delicadas logo de sua criação, era correligionário de Filinto Müller.
Eram homens bastante diferentes. A sisudez de Filinto contrastava com a alegria de Aranha. Filinto era sério, cultivava a humildade, mantinha vida modesta e discreta, enquanto Aranha era um turfista apaixonado, bom gourmet, fazia sucesso nos salões galanteando as senhoras bonitas. Em comum, eram muito poderosos e eram amigos pessoais.
Pois veio de Oswaldo Aranha um testemunho para a história: “o Filinto vira bicho quando algum interesse do Mato Grosso está em jogo, por menor que seja. Dá gosto de ver!”
Esse era Filinto Müller, que ao lado de Dom Aquino Correa, Marechal Cândido Rondon, João Ponce de Arruda, Fernando Corrêa da Costa, José Fragelli e outros poucos grandes líderes, forma a constelação dos filhos do Mato Grosso que muito fizeram por nossa terra e, desde a eternidade nos protegem como nossos espíritos tutelares.
Com seu imenso prestígio político e honradez pessoal, sua presença consular, sua imaculada vida pessoal, Filinto abriu as portas de todos os governos federais para os interesses mato-grossenses. Não mediu esforços por nossa terra.
Seu movimentado gabinete no Palácio Monroe, então sede do Senado, era a verdadeira Embaixada do Mato Grosso na Capital da República.
Sendo seu afilhado, seu discípulo, fascinado por sua figura carismática, frequentava sua casa em Brasília. Com menos de 30 anos era um misto de assessor eventual e confidente ocasional.
Debaixo das mangueiras da residência oficial do Senado, o velho líder me confidenciou a necessidade da abertura política, “lenta, gradual e segura”, como logo seria executada por seu fraterno amigo, o presidente Ernesto Geisel.
E disse-me mais: “vamos eleger governador o Emanuel Pinheiro, que é decente e de minha confiança total. Depois vai ser a sua vez, Julinho!”
As trapaças do destino nos levaram o promissor Emanuel Pinheiro, a quem ligavam laços de amizade absoluta com os Campos, em emboscada covarde e que, por certo, mudou o curso de nossa história.
E, dolorosamente, perdemos Filinto, o grande chefe, o líder inconteste, o filho apaixonado por Mato Grosso.
Minha parte a fiz, buscando no voto de nosso povo a realização da vontade de Filinto. Ao adentrar o Palácio dos Paiaguás, num átimo de segundo, lembrei do líder e padrinho e dediquei-lhe a vitória.
Filinto teve todas as demonstrações de respeito, recebeu todas as medalhas, foi alvo de todas as homenagens, mereceu todas as honras, inclusive a honra de ser atacado pelos canalhas do seu tempo!
Aos 50 anos de seu trágico desaparecimento, cuja dor ainda nos é latente, homenageio o grande brasileiro recordando que homens como ele não vem na vida à passeio, mas à serviço.
Salve a memória luminosa de Filinto Müller!